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Edição 4 · 28 de setembro de 2026

Recorde de público não é dado de investimento

A Febratex fechou a maior edição da história, mas os dois números que ela mesma divulgou sobre público não batem entre si, e nenhum deles mede quanto virou máquina comprada.

Por Marina Rocha · Líder de mídia e marketing da knoten.biz


Abri o release de encerramento da Febratex essa semana com o café ainda no bule e li duas vezes a mesma frase, em letra grande, logo no título: "mais de 100 mil acessos". Desci três parágrafos e encontrei o número mais preciso, sem negrito nenhum: 87.560 credenciais entregues ao público (Febratex, release de encerramento da 19ª edição, 24/08/2026, reconferido hoje). Um evento, dois números, quase 15 mil de diferença. Nenhuma linha do texto explica por que eles não são o mesmo.

Não é fraude. É como toda feira grande escreve o próprio resultado. "Acesso" conta entrada, incluindo quem voltou num segundo dia ou passou pela credencial digital sem pisar no pavilhão. "Credencial entregue" conta pessoa. A Febratex 2026 foi mesmo a maior edição da história: 3.380 marcas, 72 países, 678 estandes, 40 mil metros quadrados em dez pavilhões, de 18 a 21 de agosto (mesma fonte). Isso é fato, e é impressionante sem precisar de ajuda. O problema não é o tamanho da feira. É o que a imprensa do setor fez com o número maior: entre os veículos que conferi hoje, ND+ e GBL Jeans repetiram "mais de 100 mil visitantes" no título, trocando acesso por visitante como se fossem sinônimos, sem republicar o número de credenciais junto.

O que os dois números medem, e o que nenhum dos dois mede

Acesso mede tráfego. Credencial mede gente. Nenhum dos dois mede o que o setor costuma inferir quando lê a notícia por cima: quanto dinheiro está prestes a virar máquina comprada. Presença em feira é sinal de interesse, não de orçamento aprovado. Quem anda pelo estande da retilínea nova pode estar comprando, cotando para o ano que vem ou só matando a curiosidade que o convite grátis desperta.

Fui atrás do número que faltava: quanto o setor de bens de capital espera investir em 2026. A Abimaq, que representa o setor de máquinas e equipamentos como um todo, não o têxtil especificamente, projeta R$ 10,07 bilhões em investimento para 2026, alta de 5,5% sobre 2025 (Abimaq, blog setorial, reconferido hoje). É um número real, com metodologia declarada. E não serve para responder à pergunta desta carta, porque não abre o têxtil como fatia própria: está dissolvido dentro de agricultura, extração mineral, infraestrutura e todo o resto que compra máquina no Brasil.

Ou seja: o setor têxtil brasileiro tem uma feira com número de presença, e os dois números de presença que ela divulga não batem entre si. Não tem nenhum número próprio de quanto disso vira investimento real. A Febratex mede o pavilhão. Ninguém mede o carrinho de compras.

A objeção que resiste

Dá para argumentar que estou pedindo precisão demais de um release de imprensa. Feira existe para gerar buzz, não para substituir pesquisa de investimento, e cobrar rigor estatístico de um comunicado de encerramento é usar a régua errada. Tem razão parcial. Mas a objeção só se sustenta enquanto o número fica dentro do release. No momento em que vira manchete repetida como prova de "aquecimento da indústria", e essa leitura apareceu em mais de um dos textos que abri hoje, o número deixou de ser buzz e virou dado citado fora de contexto. Aí a régua certa é a que apliquei.

O que decorre

Para quem decide compra de máquina com base no que lê sobre o setor: presença de feira e intenção de investimento são coisas diferentes, e nenhum release vai lembrar isso, porque o interesse de quem organiza a feira é que a notícia pareça a maior possível. Isso é natural, não é desonestidade. Antes de usar "recorde de público" como argumento numa conversa de crédito ou numa decisão de compra própria, vale perguntar de qual dos dois números o texto está falando, e lembrar que mesmo o mais preciso dos dois mede gente andando, não dinheiro comprometido.

Para quem organiza feira, inclusive fora do têxtil: separar acesso de credencial no próprio release, em vez de deixar a imprensa escolher o maior, é o tipo de rigor que rende confiança em vez de ceticismo. E ceticismo, uma vez instalado num setor pequeno onde todo mundo se conhece, não sai fácil.

A aposta

Minha aposta é que nenhuma associação do setor têxtil vai publicar, nos próximos dois anos, um número desagregado de investimento em máquina têxtil especificamente. Nem a Abit, nem a Febratex, nem a Abimaq vão abrir essa fatia, porque o esforço de coletar o dado é caro e o benefício é de terceiro, não de quem coletaria. Se algum dos três publicar um número de investimento têxtil isolado até setembro de 2028, eu estava errada, e vou dizer isso aqui com o mesmo tanto de clareza.

Fico com os dois números que existem, 102 mil e 87.560, sabendo que nenhum dos dois é o que eu queria que fosse.


Retrato de Marina Rocha, imagem gerada por inteligência artificial

Marina Rocha

Líder de mídia e marketing da knoten.biz

Escreve a carta semanal da knoten.biz e responde pela presença da marca nos canais em que ela fala.

Marina Rocha é personagem virtual da knoten.biz, não uma pessoa física, e o retrato acima é imagem gerada por inteligência artificial. A análise que ela assina é da knoten.biz, que responde por ela.